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A bagunça de existir

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • 20 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de out. de 2025


Às quartas eu fumo tabaco. Eu me sento no chão com carpete da sala, tiro da bolsa a seda, o tabaco e enrolo à mão. O cheiro do tabaco é forte e só sua imagem me enche de desespero para sentir seu gosto. Uma vez na boca, sinto uma calmaria, que muito me faz falta vivendo em São Paulo. Fico ali, naquele chão com meu tabaco, bebendo um vinho orgânico diferente que nunca ouvi falar, leio livros profundos e difíceis, caros demais para mim, mas mesmo assim os compro. Ouço aquelas mulheres reunidas com roupas e cabelos legais demais para mim, falando de teoria da arte que eu desconheço. Falando de fotógrafas, dançarinas, musicistas e escritoras que nunca ousei saber sobre. Me levando para caminhos que minha ignorância fechou as portas há muito tempo. Dessa vez, eu faço questão de ouvir com atenção, anotando no fundo de minha mente inebriada uma lista de pessoas de interesse, que quero conhecer, livros que quero ler, experiências que eu quero viver.


Ouço e falo por horas com aquelas mulheres sobre ser uma mulher no mundo. E eu derramo, derramo tudo, até mesmo o que eu nunca quis derramar. Vomito todos os sapos velhos que já engoli. E de repente, uma voz mais alta interrompe meu tom baixo e me impede de expor mais. Ainda bem, suspiro recobrando a consciência e bolo mais um cigarro. Eu fumo o meu tabaco, fico com os dedos com aquele cheiro e indiretamente fumo o das outras. Fumamos como se quiséssemos que a fumaça abrumasse os nossos olhos marejados, para que os outros não conseguissem ver. É muita vivência e muita dor. Todas ali, nuas, no meio da roda às quartas feiras. 


Nas sextas, eu como dois brigadeiros de maconha. É o doce que me permito na semana. Leite condensado, Nescau, manteiga temperada, sal e canela. Eu brindo com meu brigadeiro enquanto ele fica na sacada com um baseado. Eu gosto das sextas, gosto de como as cores passam a ter forma, cheiro e gosto. O azul, por exemplo, se tornou minha cor favorita, porque tem cheiro da minha mãe. E o verde da minha gata. Tricotei um suéter verde e azul depois disso, o uso quase todos os dias. Eu chego a tocar o universo com facilidade, desvendar todos os mistérios que se escondem em cada canto daquela imensidão escura, dou uma volta na lua e depois retorno a terra. Todas as sextas-feiras. Mas eu sempre preciso de um tempo. Sempre termino contemplando o horizonte, cansada da cidade. Eu sempre choro. E subitamente, eu me mando para o Guarujá. 


Nos sábados no Guarujá onde os meus dedos não cheiram mais a tabaco, apenas a rosas brancas, o mesmo cheiro do sabonete no lavabo da minha mãe. Bem cheirosinhas e agradáveis. Poderiam ser às mãos de qualquer um. Lá, leio sobre mulheres bem jovens, mas muito fortes que montadas em dragões revolucionaram seus mundos. Venho crianças que falam japonês, mas vivem em um lugar fictício onde lutam pelo acreditam. E me divirto. 

Eu contemplo o oceano e ele me contempla. 


Por muito tempo, eu estive em guerra com todas essas mulheres que habitam em mim. Sentia que às quartas eu era uma personagem, que era tudo mentira. Que eu me esforçava para caber em algo que não me pertencia. Via em mim uma criatura falsa que lia Orwell e Plath para pertencer em algo que não me cabia, já que, na verdade, eu era uma eterna amante da fantasia romântica. Aquela mesma associada aos tolos. Os livros de oitocentas páginas cheio de imagens. Depois, ainda em guerra, na época em que eu era a principal odiadora de mim, na época em que eu me sentia um corpo desnecessário poluindo o planeta, imaginei que gostava tanto do fantástico porque me faltava crescer. Eu era verde e precisava amadurecer. Então em desespero, ateei fogo em todos os dragões e o sexo estranho que os generais faziam no banheiro, as fadas e elfos, aos desenhos e tudo o que era colorido.

Passei quatro anos lendo só os cabeçudinhos: Durkheim, Foucault, Benedict, Du Bois, Nietzsche e Schopenhauer. E só depois vi que esse grupo que eu tanto perseguia já tinha se afastado de mim mais uma vez, sem que eu me desse conta eles começaram a ler Elkin, Ernaux, Iorio, Louis, Ferrante e muitos outros que eu ainda não conhecia e com raiva — por mais uma vez não conseguir alcançá-los — eu me prometi que nunca os leria.

Mas eu sentia falta de tudo que havia abandonado. Não gostava da massa disforme que eu havia me tornado enquanto procurava por mim. Naquela época, eu podia ser qualquer pessoa. Não tinha nenhuma identidade. Sentia no fundo que não podia viver sem nenhum dos dois mundos. Só depois, depois de muito tempo porque foram muitos anos de autoflagelo eu vi que eu era esses dois mundos, às vezes três e até quatro.


Ser humano é muito complexo para a simplicidade que é pertencer a um grupo só. 


Fiz as pazes comigo mesma, eu me aceitei e conto para os quatro ventos que estou lendo Flâneuse ao mesmo tempo em que leio Príncipe Cruel. Que assistia The Bear e Sexy and the City. Que ouvia Taylor e Belchior. Tudo desconexo e ao mesmo tempo tudo junto. Porque eu sou desconexa e junta. E como não haveria de ser? 

Tudo isso me foi revelado em uma noite em São Paulo, às noites paulistanas tem essa fama de desvendar segredos e promover epifanias. Eu estava em um bar lá na Barra Funda, tocava um rock muito alto e eu estava com meu cabelo fogo bem armado, bem anos 80.  Um rapaz baixinho me cutucou e disse “você é a cara de São Paulo.” Só entendi dias depois. Eu não era imatura ou falsa como sempre acreditei ser. Eu era essa puta bagunça, assim como São Paulo.

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