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Transtorno de Déficit de Atenção

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • 9 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 11 de jan.


[Transcrição de uma gravação, feita em um dia de surto qualquer].

O porquê estava parada naquele café, sentada naquela cadeira no meio de São Paulo sem nada para fazer com apenas a droga de um caderno de capa preta com folhas pautadas, aberto olhando para mim esperando ansiosamente que eu tivesse alguma coisa para escrever, mesmo que nada me viesse à mente naquele momento — eu não sei exatamente... talvez porque tenha passado cinco anos trancada dentro de quatro paredes quatro maravilhosas, desgastadas e perfeitas paredes — ouvindo os maiores antropólogos do país gritarem em meus ouvidos a importância de sentar, calar a boca e observar, apenas observar. Ou talvez porque, há pouquíssimo tempo tenha lido um livro do clube, que falava da importância do artista de perambular, fechar a matraca, ser um corpo invisível que não atua na cena. Apenas assiste de longe, sem promover nenhuma interferência, captando cada traço que monta a cidade e preencher a sua arte com todos esses traços, criar um imenso espetáculo performático, esquisito algo assim. 

Acaba que eu sou uma pessoa influenciável de mente fraca. É bem possível que essas coisas tenham me influenciado a me propor ser esse tipo de artista que observa o mundo real fora da segurança de seu apartamento no centro, fora dos livros já escritos e das teorias sociais. 

Por muito tempo, pensei que o valor estivesse apenas nisso. Queria até colocar notas de rodapé em meu romance, citar os grandes autores e cientistas que me suscitaram todas as minhas contradições e indignações, que me motivaram a escrever. Como se um romance precisasse desse tipo de validação técnica para nascer. Até agora, nesse exato momento, me ponho fazendo coisas que também vi outras pessoas fazerem, outros grandes autores, outros grandes nomes, os quais eu provavelmente nunca vou ser comparada, até porque, honestamente, nem sei o que que eles faziam para saber se posso ou não ser comparada a eles. 

O ponto é que eu estou aqui, com a boca em um gravador, registrando o que, acredito eu ser algo que mais tarde será público. Mas veja bem, essa é a coisa mais idiota que já fiz, estar no meio de São Paulo, em um café, segurando meu celular na frente dos meus lábios e gravando — seja lá o que seja isso — com uma linguagem ridiculamente rebuscada, com a qual eu não me expresso diariamente, mas porque é a linguagem com a qual prefiro escrever. 

Eu falei “com a qual” duas vezes e essa é a coisa mais estúpida que eu já fiz em toda a minha vida. 

Até porque, a bem da verdade, é que esses artistas, eles não tinham muita vergonha de ser "artista", não. Ficavam sentados no meio de um café em Paris, no caso, né? Porque isso não é uma coisa muito brasileira, acredito eu. Talvez seja um comportamento comum aos artistas de classe média, mas eu não pertenço a essa classe. Então, para mim, essa coisa de chamar atenção e tirar o celular da bolsa — o gravador da atualidade —, começar a gravar uma ideia solta, uma coisa desconexa que não faz muito sentido, ainda é muito vergonhoso. Quero dizer, as pessoas olham — apesar de que elas não olham e eu sei disso. 


Todo mundo tá vivendo sua vida numa correria do cacete e ninguém se importa muito com o que eu faço ou com o que deixo de fazer. Mas é longe de mim conseguir pegar o meu celular, gravar um áudio esquisito, transpondo uma ideia sem nenhuma mensagem, uma coisa desconexa que todo mundo percebe ao seu redor que não tá indo para ninguém, que na verdade é uma anotação pessoal e particular. Do mesmo jeito que eu não consigo pegar o meu celular ou uma câmera, que seja qualquer coisa, qualquer merda e simplesmente tirar fotos de uma pessoa ou tirar fotos de um lugar ou começar a gravar uma coisa sem que as outras pessoas sintam desconexas ou incomodadas com aquilo. Até porque, se isso acontecesse perto de mim, eu provavelmente ia entrar em pânico. Detesto estar perto de uma câmera quando a outra pessoa está se gravando. Eu sempre fujo dessas situações, mesmo que agora eu tenha que colocar a minha cara a tapa aqui para poder tentar fazer com que isso seja alguma coisa de verdade, porque só é verdade se alguém está lendo. Enquanto ninguém está lendo, não é de verdade, o que para mim é muito estranho, porque veja bem, eu sentei, gastei meu tempo, eu fiz, eu escrevi, então é de verdade, independente se alguém lê ou não. Mas eu aceito a lógica, abaixo a cabeça me dizendo que não fui eu quem criou as regras do jogo, sou apenas uma jogadora. 

Acho que eu já me descambei um pouco, para você ver como funciona uma mente que nem a minha — a gente se descamba. Nós estamos aqui falando de uma coisa e aí de repente, no meio desse assunto, você lembra de outra coisa. Enquanto eu falo, me lembro de pensar em flores mortas e lembro que daquela vez ou quando eu comprei o meu buquê favorito da vida, com flores secas em tons do outono americano — no Brasil as coisas não ficam laranja. O buquê de folhas secas, me lembro que foi uns setenta e dois reais e que para mim o preço era injustificável, porque pelo amor de Deus, elas eram muito caras! Mas dai minha mãe me explicou que fazia sentido sim, por todo o processo por trás de fazer flores tão bonitas durarem para sempre, já que elas estão secas, elas não morrem, já estão mortas e... eu perdi no fio da meada. 

Eu não sei mais o que dizer sobre isso, mas é para você ver como o assunto entra no outro e como as coisas são realmente desconexas. Minha cabeça só funciona quando eu escrevo. Às vezes parece que as linhas da folha entram na minha mente e eu consigo pensar de forma linear, sem que nada me fuja ou caia pelas beiradas de um novo pensamento. Meus novos pensamentos costumam ser abruptos, violentos. Eles não pedem licença. Invadem. E eu tenho que tentar administrar a bagunça que eles causam.

Mas enfim, eu não estava falando sobre isso e na verdade eu nem lembro sobre o que eu estava falando. 

Ah, sim! Esse ato de ser artista em público para mim é muito difícil. 

Eu não sei como finalizar isso, quem sabe mais tarde eu descubra. Essa lógica vai se perder, provavelmente porque eu tenho um caderno, isso analógica, não porque é bonitinho ou porque é performático, apenas pois no minuto em que eu coloco as coisas no celular, eu esqueço delas completamente. Eu nunca me lembro, nunca me lembro de publicar, nunca me lembro de terminar. No celular, as coisas vão para um limbo misterioso, ficam no esquecimento completo. Por isso que agora eu ando com um caderno parecendo uma idiota. Que nem faziam todas as minhas heroínas, me lembrar disso faz eu me sentir menos idiota. Sou artista, escritora.

E aí no metrô eu tenho que revelar essa minha outra versão. Para além da trabalhadora às 06h00 que está tentando chegar no trabalho, eu tenho que me fantasiar dessa menina ridícula, pintada de artista, que pega um caderno no meio do metrô, no meio da rua e começa a anotar uma ideia. E aí, meus amigos, eu olho para — vocês sem olhar para vocês, porque vocês não estão aqui — e penso, "uau!" às vezes era melhor pegar o celular e gravar as frases desconexas. E não está todo mundo fazendo isso? Quer dizer tá todo mundo falando sozinho na rua mesmo, com aquele foninho em uma conversa que ninguém percebe, onde todos parecem estar falando com o universo ou uma força maior qualquer. Me parece às vezes, que todos eles também estão falando mensagens desconexas, mas isso não gera incômodo, já que do outro lado da linha também está outra pessoa no meio de um monólogo. Falando de coisas que não se relacionam, esvaziando o peito ao mesmo tempo. 

Um estranho fenômeno advindo do ápice estrondoso do individualismo liberal. 

De qualquer forma, eu podia fazer isso também, até porque, quem poderia dizer que esses áudios longos e confusos não chegarão a ninguém. Até porque toda a arte tem que ter a intenção de se comunicar. Eu li isso uma vez em uma exposição sobre um arquiteto no momento em que ele discorria sobre arte. O que foi bem interessante. Quer dizer, um arquiteto, ele faz prédio, o prédio tem que ter a intenção de se comunicar. Uma ideia bem modernista. Quer dizer, vários prédios construídos de forma que deixassem vãos onde as pessoas pudessem interagir, promover uma sociabilidade. Uma comunidade. Acho interessante, me parece certo. Pensar que a arquitetura teria esse tipo de preocupação. Mas não sei dizer honestamente, eu não pesquiso muito sobre essas coisas. 

Cair lá de paraquedas, sabe? Eu sou aquele tipo de pessoa em São Paulo que meio que nunca sabe o que está acontecendo na cidade mas tira um dia para sair e vai em tudo que é canto que tá tendo coisa. 

É tudo bem desconexo esquisito eu não planejo muito para fazer as coisas eu só vou lá e faço, porque se eu planejar então eu não vou fazer e é por isso que eu peguei aleatoriamente celular sem ter muito que falar, sem ter muito que conversar, sem ter uma ideia exatamente frutífera artística na minha cabeça e sem saber muito bem como finalizar, porque as ideias em uma mente como a minha nunca se finaliza. Elas sempre dão gancho para uma coisa nova e tudo vai se construindo e construindo. E eu poderia ficar aqui o dia inteiro só falando de todas as coisas que os ganchos vão puxando. Mas de verdade eu tenho outras coisas para fazer, porque como eu já disse antes, eu não sou essa classe média alta artística maravilhosa que simplesmente pega o gravador no meio da rua e começa a gravar. Então eu preciso trabalhar, então é assim que eu vou finalizar. Eu sou uma artista ainda envergonhada, sem muita coragem de ser ou dizer que eu sou escritora em voz alta para as pessoas. Eu me planejo várias vezes. Eu ensaio de verdade no meu quarto, na frente do espelho, mas é bem difícil para mim dizer isso ainda. Mas veja bem, eu sou, é o que eu sou e é o que eu sempre fui, aparentemente. Uma escritora. E se é isso que sou, então não tem para que ter vergonha. Mas bom, é muito mais fácil dizer isso do que fazer. Sentimento a gente não controla e vou fazer o quê? É que sou uma artista ainda envergonhada, pobre e eu tenho que trabalhar, até porque a arte é muito cara, se esvai muito capital. Mesmo que eles fiquem lá gritando que todo mundo pode ser artista, eu sei que isso não é verdade. 


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