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Que corpo é esse que vaga vazio?

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • 14 de mai.
  • 2 min de leitura

A experiência Paulistana - #1



A cidade é feita para aqueles capazes de transcender cada limite do corpo, se é que posso fazer afirmações desse peso, se é que me permitem. Mas me parece apropriado dizer, e gostaria de convidá-lo a fazer o mesmo na sua próxima passeata, convido-o a sair de si e viver o espaço. A se ver do outro lado da calçada. São nos momentos em que você não existe, em que o corpo cede licença, dominado por um silêncio interno alucinante, quando a consciência se separa da carne, perde sangue. É em momentos assim onde nos tornamos capazes de nos descolar da pintura, de ter aquela experiência que só a invisibilidade em público da cidade pode proporcionar, quando você percebe que não pertence, que nem ao menos existe, é assim que nos conectamos com cada fissura de concreto que forra o chão. Que enxergamos o todo, é onde de fato somos capazes de observar as complexas e extensas redes de sentimentos que iluminam uma metrópole. Os arranjos sociais. 


Transcender soa como essa sensação que eu descrevi para mim mesma várias vezes “há algo de mágico em realmente ver a cidade” ou “há algo de mágico em andar nas ruas às quintas no horário de pico”, essa sensação que eu não conseguia descrever de estar contaminada por uma força mística cheia de vida que me ressuscitava um pouco o espírito. Não sei o que era mágico, talvez seja o quadro como um todo, o conjunto desarmônico — porque nada na cidade é harmonioso —  composto pelas pessoas e pela arquitetura. Os bares lotados, as luzes invadindo a calçada projetando minha sombra, a pluralidade de vozes, os cheiros. E pela força do hábito de desaparecer, eu me vejo mais uma vez de cima, fora da cena. Ocupando meu local privilegiado na borda do quadro.  


E eu reconheço que — daqui para frente, meu leitor possa vir a me achar uma chata e pode pensar que não aproveitar a noite paulistana é mais uma questão de escolha que de pertença, mas veja bem, mesmo quando me sento, eu vejo essas imagens de fora, como uma telespectadora de um filme. O tempo me mostrou o que considero a sina do artista contemporâneo: seu corpo não pertence a lugar nenhum, por isso ele transcende, para se conectar com cada pedaço naquela cena, sem pertencer a ela. Sem compor a obra. Para carregá-la como um livro favorito debaixo do braço, sempre a postos para ser observada novamente, para ser, mais uma vez, a musa de novos fascínios.  


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