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A nós, os contraditórios.

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • há 18 minutos
  • 3 min de leitura

#3 A experiência paulistana (Escrita à deriva)


Pincelei por aqui um pensamento fresco pouco trabalhado “ser contemporâneo é abraçar a contradição latente e vivida que encarna na cidade de São Paulo”. O confronto, às vezes pacífico, entre o passado, o presente e o recorrente flerte paulistano com o futuro. Mas esta acaba sendo uma das reflexões mais latentes com a qual me deparo paulatinamente no caminho para casa e para o trabalho. Assim é impossível para mim - de mente ambulante e pés fixos - ignorar os pensamentos agressivos, as frases impiedosas que se montam diante dos meus olhos, malvadas, pois sabem quando estou em locais onde não posso anotá-las. 


Pois bem, me ocorreu novamente a ideia da contradição na oficina da qual participei no museu Casa Ema Klabin. Ora, e como não haveria de aparecer? Estando eu numa verdadeira mansão dos anos 50? De frente ao MIS? Cruzado pela Augusta, e de fácil acesso à Av. Paulista? Foi praticamente impossível não tecer essa associação logo de cara, de tal forma, que esse pensamento - confesso que nada original - surgiu de diversas outras bocas, prontas a narrar a própria experiência, que não a minha. De qualquer forma, como boa contemporânea, não espero inventar nada. Nasci muito tarde para a inventividade. É uma daquelas pretensões que não cabem aos jovens filhos do concreto dos anos 2000. A nós, resta a releitura, apontar as contradições e intensificações do nosso tempo, sem nunca criar algo novo. Ou talvez, minha mediocridade seja a responsável por tal lastimável elaboração. Quem sabe? 


De qualquer forma, na Oficina, me disseram que um ser grego mitológico, do qual não me recordo o nome, me deixou uma pergunta, a qual eu rapidamente reinventei na minha cabeça, de maneira tão vivida que me esqueci de que a tinha interpretado de forma completamente alucinada. Ela me perguntou: No que nos tornamos quando atravessamos o espaço? Talvez tenha interpretado com uma grandíssima pirueta conceitual por não saber responder no que me torno quando atravesso o espaço, mas há certa lógica no delírio que me atravessou quando li essa pergunta - que acreditei se tratar de “tempo” e não de “espaço”. Estando de tal forma presa a abstração inevitável, me vi, naqueles corredores, não meramente atravessando o espaço, mas sim o próprio tempo - atravessando os símbolos com os quais demarcamos as épocas - pinturas, esculturas, porcelana, tapeçarias e pratarias que carregam consigo traços do momento em que foram finalizadas, e logo, ali, eu uma contemporânea estava passivamente atravessando o passado. Existe algo mais paulistano que a contemporaneidade atravessando o passado? 


E mais uma vez, diante da inescapável sequência de fatos, eu transcendi. Cedi meu corpo, mais uma vez, para o espaço. Por alguns minutos, eu não existia nem ali, nem em lugar nenhum. 


Veja bem, é provável que o pensamento careça, de fato, de desenvolvimento profundo, já que eu mesma ainda não compreendi por completo os essa sensação de não pertencimento e dissociação tão profunda na qual me encontro que por vezes chamo de “transcender o corpo”. Talvez seja apenas meu desespero de escritora juvenil em aprofundar sensações que não são tão profundas assim. Mas, apesar da penosa e abismal dissociação na qual me encontrava, dessa vez, incapaz de me ver fora dos limites do quadro. Não observei, nem por um minuto de longe, os corpos se mexendo investigando aquele espaço. Todas as pessoas curiosas tentando compreender um pouco melhor quem foi um dia a figura detentora daquela casa tão magnífica, me vi - não pela primeira vez, mas mesmo assim de forma curiosa, como parte delas. Eu estava tomada pela emoção, se constatadas as tais sensações nas quais me coloco à deriva em busca, me vi parte daquele quadro, sem escapatória, sem fuga. 


Quando idealizei a “experiência paulistana” eu havia pensado que a transcendência seria o tema central de todos os textos. Minha oscilação entre a animação e o mais completo vazio é tão grande que não imaginei que seria um problema apostar na melancolia, na falta de pertencimento constante que sinto todas as vezes que saio de casa. Mas naquele espaço, não pude escapar de mim. Não pude ceder meu corpo. Talvez a pertença seja alheia a transcender, quem transcende não deveria pertencer a lugar nenhum, nem a ninguém. Mas, me perdoem a recente abstração, mesmo presente, eu cheguei a minha conclusão: Ultrapassar o tempo é respirar São Paulo. Perceba como minhas conclusões estão sempre mudando: assim como a cidade, eu sou um corpo vivo, contraditório, em estado de deslocamento constante. 


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