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Imagens de casa

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • 16 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Eu me mudei no começo do ano.

Eu morei por mais de dez anos no mesmo canto, há duas horas da cidade de São Paulo. Para uma megalópole a distância não era tanta, mas mesmo assim, não parecia ser suficiente. Eu queria estar dentro. “Ser a louca dentro da loucura”.

Ansiava em pertencer a tudo “aquilo”, não ser uma figura de passagem, uma espectadora distante, por alguma essa mudança sempre fez parte dos meus mais diversos sonhos. Eu já vivia em São Paulo, não saía do meu lugar de origem, não gostava dele, não o conhecia A única coisa que eu sabia até de olhos vendados era o caminho até a “saída”, o terminal metropolitano que me levava para São Paulo. Mesmo assim, eu não pertencia. Eu não era de lá, não nasci lá. Então me sentia distante. Meu corpo não aderia a imagem, ficava apenas flutuando ali, à margem. Sempre na borda, nunca integrante do quadro. Ali eu não votava, não estudava, não trabalhava, não tinha vínculos. 

Mas a situação assumiu novos contornos quando comecei a faculdade, na Zona Oeste da cidade. Passei quatro anos reclamando e só consegui me mudar depois de concluir o curso, irônico, não? 

O ponto é que eu me taquei naquela correria assim que vi uma oportunidade. Aconteceu em janeiro, quando eu empacotei tudo, principalmente o meu sonho e me fui. Foram cinco viagens de ida e volta e dois caminhões. Eu tinha muita coisa que já não tenho mais, minha imensidão não cabia — e até hoje não cabe — no meu apartamento. Diminuí-me. Mas lá estava eu em São Paulo, mesmo que bem pequenininha para não transbordar as linhas, para me encaixar naquela caixa de sapatos que até hoje é o meu lar. Não me entenda mal. Eu amo minha caixa de sapatos, não a trocaria por nada. 


No dia em que empacotei tudo, eu vi todas as minhas caixas no corredor. Toda a minha vida, segmentada, partilhada. Não sei descrever bem o sentimento, uma mistura estranha e heterogênea de excitação e pânico. Nada harmônica, brigando dentro de mim enquanto eu tentava manter a comida no estômago. 

Na última viagem de carro para levar os pertences que sobraram, eu me despedi das imagens que para mim significavam “casa”. O tronco cortado de árvore onde sempre que chovia cresciam cogumelos brancos belíssimos, a visão da rua do mercadinho e do posto de gasolina de cima, com os letreiros néons, iluminando a escuridão que tomava a cidade depois das sete da noite. O silêncio audível, mesmo que não tivesse ninguém na rua. As cidades são assim, tem um som intrínseco a si mesmas, nunca ficam completamente quietas. Eu me lembrei, na última vez em que seria contemplada com aquele cenário, de respirar bem fundo, esperando que as partículas daquela composição imagética integrassem meu corpo e nunca mais me abandonassem. A sensação era a mesma, ainda que fosse diferente, o pânico e a liberdade, mas ali, sempre em harmonia, dançando valsa no meu peito. Vendo aquele frame de cima, eu me sentia sozinha ao mesmo tempo que em paz, naqueles breves momentos, eu era a única sobrevivente de um mundo pós-apocalíptico e nada podia me ferir.

Minha gata tomando sol no corredor daquele prédio antigo tomado pelas plantas da vizinha. A luz do sol, os pelos pretos avermelhados do meu anjinho se unindo ao verde claro das plantas, nos dias difíceis, era a própria visão do paraíso.  

Na primeira noite na minha caixa eu chorei muito me lembrando dessas imagens e me senti muito egoísta, no meu novo apartamento só batia sol no verão e na primavera. 

E logo no terceiro mês eu me cansei de São Paulo como nunca havia antes. Eu senti a cidade me sugar de dentro para fora até que eu me tornasse apenas a minha casca, seca, sem importância, com a minha dor invisível consumindo cada parte da minha pele até que me cobrisse por completo sem que um olho visse a transformação. 

Mais ou menos no quarto mês, a terra que nunca dorme embalou meu anjinho em um sono eterno, e eu realmente pensei em desistir. Culpei a mim, a mudança, a cidade. Mesmo com residência fincada, nós não pertencíamos a tudo aquilo e por isso, ela preferiu ir, não queria caber onde não servia. 

Me deixaram claro que eu não era como aquelas mulheres despojadas com o cabelo ao vento, cheias de energia para ir nos passeios culturais e aos bares mesmo em dias de semana. Não era como as mulheres “legais” da cidade grande. Talvez eu não fosse louca o suficiente. 

A cidade pegou os meus sonhos de grandeza, de sentar em cadeiras de couro no último andar daqueles prédios espelhados e vomitou-os nos meus sapatos sociais. Me disse que era tudo futilidade. Ela era uma grande devoradora da mesquinharia. E tinha total intenção de me engolir viva até que eu deixasse disso.

Resultou que depois de um tempo eu parei de ter delírios robóticos, não fazia mais hora extra da forma doentia de antes e com o tempo, consegui ir aos barzinhos a noite mesmo em dia de semana e nos eventos culturais. Humanizei meu corpo e minha mente. 

Priorizei, ao invés disso, me esforçar para mudar minha relação com essa cidade tão transitória. 

São Paulo parece um lar ao mesmo tempo que não parece, como se todos estivessem correndo para dormir, mas só conseguissem dormir de verdade quando estavam longe daqui. Talvez, esse seja outro motivo para o meu bebê ter ido embora. 

Mas eu ainda não podia ir, então, tentei criar a minha paz. Comecei a procurar meu canto por aqui. As novas imagens que para mim significariam casa. 

Eu andei muito procurando, mas só achei, quando percorri o bairro sem um destino definido. Algo se atiça em nós quando vagamos, não saber para onde eu ia me fez prestar mais atenção às coisas ao meu redor. Foi em uma dessas andanças que conheci a galeria, aquilo era magia pura. Me transportava rapidamente para o interior de Pernambuco onde minha mãe cresceu. Eu ficava lá tomando café com leite no copo americano, e por alguns minutos eu conseguia até fingir que não estava em uma megalópole. E as plantas, meu Deus, as plantas! Minha casa está repleta delas, estão por todo o lado. As flores também — mas essas não ficam na minha casa, já que sempre morrem pela minha falta de cuidado —  mas estavam em todos os cantos onde eu passava. No caminho ao portão do prédio, na parede da portaria, no caminho para o trabalho havia dois canteiros lindos de hortências. E eu, que nunca gostei tanto de flores me vi, vendo nelas a minha casa, era como se elas me perseguissem, estavam em todos os lugares. Ou talvez eu que as persigo, tentando conservar em mim algo que não sejam apenas os arranha céus, que por tanto tempo, foram o meu único sonho. 

Mas meu sonho se faz hoje mais complexo que antes, já percebi que na imagem completa canteiros de flores e os arranha-céus compartilham os mesmos espaços. 

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