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Em uma cidade tão grande, é luxo saber para onde vai

  • Foto do escritor: Paloma Buarque
    Paloma Buarque
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura


A experiência paulistana #2 (Escrita à deriva)


“Sigo as contradições de São Paulo, o centro histórico com seus prédios neogóticos e computadores de última geração, não luto contra, não sou alheia. Entrego meu corpo e meu saber para que a cidade me possua e escreva histórias através de mim. Isso é ser contemporâneo.”

Reflexões de uma vida inteira - diário de viagem 2026 



Eu estava dentro do carro passando por um cruzamento suspenso. 


Eu não sabia onde estava. 


Mas da janela eu podia ver com perfeição tudo abaixo de mim.


Podia ver a rua principal, as entradas estreitas e as casas empilhadas, aquela distância, tudo parecia minúsculo, menos o canteiro que se destacava. Nele, um senhor de cabeça raspada estava deitado com o peito no chão. Talvez porque aquele fosse o único jeito de sentir a terra no corpo. E logo no prédio ao lado, uma senhora, se debruçava sobre a janela e junto a mim parecia observar a cena, se ela pudesse também se deitaria no canteiro? 


Normalmente eu entro em carros para os quais desconheço o destino, mas pouco importa. De qualquer forma, eu costumo me entreter mais com o caminho. Assim, eu estava ali observando atentamente quando o canteiro desapareceu e a rua se nivelou, quando os arranha-céus voltaram a compor a imagem principal. Não se passa mais de um minuto em um carro em São Paulo sem que os prédios logo invadam a vista, e em alguns bairros os casarões majestosos. Belíssimos e amados casarões. Eu costumava passar por um enorme, consumido pela vegetação sem poda. Hoje, mesmo que me esforce muito, nem ao menos sou capaz de lembrar a cor da tinta que a folhagem escondia. Era um casarão abandonado na descida da Consolação para Higienópolis. Não podia evitar encará-lo por alguns minutos. Saudá-lo enquanto ele saudava o sol.  


Se eu pudesse, se tivesse uma razão melhor além da mais pura curiosidade e anseio por ouvir aquelas paredes, invadiria todos os casarões de São Paulo. Passaria apenas uma noite, antes que o silêncio e escuro absoluto explodissem meus nervos. Conversaria com o teto. Veria meu corpo de cima, construiria a cena nos mínimos detalhes. Daria vida ao meu delírio semi lúcido, a fim de não ser mais atormentada pela necessidade de conhecê-los por dentro, apesar de que o devaneio costuma me bastar. 


Voltaria de minha noite de prazeres semi-urbanos, quem sabe encontraria o senhor deitado no canteiro e a senhora na janela. Talvez poderia, ao menos, fazer parte dessa cena e deitada no canteiro sentiria enfim, no meio da cidade, a terra sobre meu peito. 


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