Febre de pisca-pisca
- Paloma Buarque
- 12 de jan.
- 2 min de leitura

À noite, com a TV ligada, passando um reality show que honestamente não sei o nome, são em momentos assim em que me esforço — mesmo que nunca obtenha resultado — para desligar minha mente, por mais que eu queira, ela não veio com um interruptor e pobre de mim, obrigada a conviver com seu barulho constante… devo dizer que poucos são os meus momentos de paz.
De qualquer forma, 8 de dezembro, segunda-feira à noite. Com a casa já decorada. Os bonequinhos vermelhos, o pinheiro, as bolas reluzentes, as luzes douradas — minha mãe tem horror a luzes brancas. Pisca-pisca, um nome claro e aberto. Não guarda segredos. Uma corrente com diferentes pontos de luz que alternam o brilho, nunca se propôs ser algo diferente. A alternância. Fixar meus olhos naquele ponto, identificar o padrão em que alterna. Um eterno vai e vem, um ioiô de luz.
Que bela merda de existência, não?
E é claro que o pisca-pisca não pensa e nem sente, mas tem muita vida por aí que segue o mesmo rumo. Que varia dentro do mesmo ciclo de alternância do pisca-pisca, tal qual um pupilo dedicado.
O pisca-pisca na sala decorada, o reality na TV, a alternância em ioiô. O ir e voltar, rotineiramente. O subir e descer os mesmos dois andares, dar um passo para frente e depois esse mesmo passo para trás, todos os dias. Nunca alcançar o infinito ou se deparar com a miséria. Uma existência vazia de significado. Para sempre em um movimento estático. Andando sem sair do lugar.
E eu poderia ficar naquele sofá por mais de doze horas seguidas apenas contemplando a angústia da alternância do maldito pisca-pisca. Poderia ficar parada sentindo uma leve ardência na retina. Fazendo do meu corpo o deságue da dor física e emocional. E tudo isso, porque, pobre pisca-pisca, que me revelou na segunda à noite, 8 de dezembro, o vazio de uma existência em constante movimento estático.
“Louisa Gradgrind passa grande parte de Tempos Difíceis fitando o fogo na lareira; por fim, seu irmão lhe pergunta o que ela vê ali “você parece encontrar aí mais coisas para olhar do que eu jamais encontraria” disse Tom. “Mais uma vantagem, suponho, de ser mulher”.
Vantagem?



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