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A vizinha é minha amiga?

Foto do escritor: Paloma Buarque
Paloma Buarque
10 de jul.
2 min de leitura

#4 Escrita à deriva (A experiência paulistana)

Quando sempre tem uma coisa nova acontecendo, uma coisa nova para fazer, é possível não se sentir sozinho?

A sensação era constante, e você pode imaginar o quão tortuosa é para uma mulher intensa como eu? Precisei então, buscar nessa cidade tão gigante, um pouco de companhia e para o meu espanto, encontrei na observação da vida alheia. Em São Paulo estamos todos tão próximos, é difícil não observar alguém sempre que olha pela janela e fora a vida das outras pessoas, a cidade oferece muito pouco para apreciar.

Em particular me apeguei a uma senhora, cuja casa eu podia ver da minha sacada. A casa dela era sem dúvida minha preferida da rua. Mesmo já estando em um bairro que me fazia duvidar que eu estava na megalópole, sua casa se destacava, parecia até ter sido tirada de outro lugar e posta ali. Uma árvore enorme tampava toda a parte da frente e a dona não parecia ter mais de sessenta anos. Eu reparei a casa assim que me mudei, mas só um tempo depois a vi, quando, mesmo com o vento forte, ela se sentou na laje numa cadeira de praia com seu cachorro com quem dividia o lar e leu um livro por quase duas horas. Depois disso ela se tornou minha companhia de todos os dias. Ela saía comigo pontualmente às oito da manhã e eu a flagrava subindo as escadas da residência quando eu chegava às dezenove. Não sabia o que ela fazia, pude apenas presumir que o trabalho era estressante e que sua laje enorme o suficiente para abrigar reuniões de família, espelhava a solidão preenchida apenas pelo cachorro.

A área externa da casa era tomada pelas plantas, uma trepadeira cobria quase todo o telhado, a árvore plantada na laje, que tampava toda à frente, compartilhava o espaço com outros vasos menores com plantas variadas. Eu não pude deixar de imaginar diante daquelas plantas todas, estava reconhecendo ali mais uma escapista? Alguém procurando se entorpecer em busca do tempo real das coisas? Que também não aguentava mais a agonia da pressa? Ela se sentava ali para entorpecer os sentidos, fingindo que estava em outro lugar sob a regência de outro tempo? Que outras coisas lhe proporcionavam refúgio? Teria comprado uma vitrola de mil reais no sebo do centro? Gastaria quarenta e cinco reais por mês comprando fitas usadas? Ou lia os clássicos que se passavam no interior? Arcadismo? Carpe diem e todas as outras bobagens onde nos escondemos nos fins de semana? Usava detergente biodegradável? Estudava sobre o tempo da natureza e a artificialidade da modernidade? 

Ontem à noite eu tive minha resposta. Refúgios nunca são suficientes, o corpo sempre pede mais, nada basta quando se quer fugir daquilo que te cerca.

Ouvi o cachorro dela latindo e olhei pela varanda. Era tão incomum vê-lo na laje sem ela. Mas um pouco à frente, na rua, seu corpo repousava imóvel. Do concreto viemos. Ao concreto voltamos. 


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