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O desejo mora no que desconheço

Foto do escritor: Paloma Buarque
Paloma Buarque
11 de jul.
3 min de leitura

#5 Escrita à deriva (A experiência paulistana)



Ela via a cidade através da janela do carro. Se descesse em qualquer uma daquelas ruas, seus pés jamais seriam capazes de trilhar qualquer caminho que fosse, para além da perda completa de si. Mas Ana não era nenhuma forasteira, ela havia nascido ali, naquele mesmo chão que permanecia sob seus olhos, vinte anos depois, um grande mistério. E não tinha como disfarçar, mesmo em grandes grupos, rodas de conversas com amigos, ela sempre era pega quando tentava tecer opiniões sobre bairros ou ruas, a verdade se escondia nos equívocos que ela dizia, na ignorância que libertava e os olhares a sua volta a remontavam para o seu lugar: Ana não vivia a cidade. Voluntariamente, há muito tempo, ela decidiu admirá-la de uma distância angustiante. A verdade é que a deslumbrante cidade era também assustadora, temia ser engolida por ela ao se aproximar. Temia que se alimentar dela custasse um preço alto que não era capaz de pagar. Dentro dos carros, onde mantinha os tênis limpos e a mente sã, mantinha consigo um caderno cheio de nomes de ruas e retratos de prédios que queria guardar na memória, ela era como uma alma presa, acostumada a estar sempre no mesmo lugar, comendo e bebendo a mesma coisa. 


Seguia assim, dia após dia, vivendo dentro das linhas que marcavam os espaços por ela ainda não explorados. E da pequena janela sobre quatro rodas nutria seu desejo pelas coisas não vivas, da mesma forma que nutrem aqueles que buscam toda noite por um pouco de calor. Ana desejava as coisas que por ela eram vistas como eternas. Se apaixonava secretamente por sacadas e vizinhanças que nunca mais veria. Pela forma dos prédios de uma determinada rua, pelas casas. O tipo de vidro, os canteiros e as livrarias locais.  


Desejar a cidade para além dos muros de seu conforto era para Ana um passatempo, a gota d’água capaz de reviver a carcaça seca que havia se tornado anos antes. Isso pois, sabia sem culpa, exatamente como sua vida seria. Sabia o tipo de prédio em que moraria, sabia como seria sua sacada, quais ruas eram as mais prováveis, qual tinta cobriria suas paredes, o piso e até mesmo o tipo de planta e de café.  Se conhecia o suficiente, sabia que mesmo em idade hábil para lutar pelas coisas que desejava, ela sabia que não as teria. 


Era dentro do carro, distante o suficiente para não tomar nada para si, que Ana se permitia imaginar a vida que jamais teria, as coisas que nunca seriam suas fossem elas experiências ou materialidades fúteis que adquirimos só para aliviar a dor. Ela se permitia fantasiar o domínio completo de seu desejo. E precisava ser assim. Sua vida, por ela já conhecida, não havia como desejá-la, apenas vivê-la. Precisava nutrir apetite por algo, precisava estar viva. Assim, mantinha ali a um palmo de distância, sempre longe. Nunca dominando a imagem. Respeitando o desejo.  


E assim vivia a contradição que vivem todos aqueles que desejam: no minuto que lhe abriam as portas, que lhe diziam “pode entrar, pode viver aqui”, Ana temia a vida. Temia perder a ânsia que ainda a mantinha ali, pois sem aquilo, não haveria mais razão para estar. Temia precisar construir outro refúgio, mas como? Tendo nutrido aquele com tanta devoção? Sabia que possuí-la mancharia o imagético construído, perfeitamente só para o seu prazer. E assim, dentro das margens do seguro, fazia o mesmo caminho para casa, o mesmo caminho para o trabalho, o mesmo caminho para os mesmos museus. A novidade estava sempre atrelada ao outro corpo. Nesses momentos, Ana se entregava ao guia e sem olhar ao redor, seguia cada passo. Sem interesse em aprender o caminho, sem buscar reproduzir aquele movimento. E uma vez sozinha, quando cedia a tremedeira nas pernas desesperada para se movimentar fora das linhas, avançava muito pouco e logo  se via em pânico. Traçando o caminho por onde sua única opção era se perder. Ultrapassando os limites acordados, capaz de ser engolida. Nesses momentos, Ana não arriscava a vida, muito menos o desejo. Dava o jeito que fosse de voltar para a janela. Segura em sua pseudolucidez.



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