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Onde estão as interrogações? 

Foto do escritor: Paloma Buarque
Paloma Buarque
10 de ago.
4 min de leitura

#6 Escrita à deriva (A experiência paulistana)


Arrumar o quarto é por vezes quase um ritual de desapego. Um movimento onde mais se bagunça que se arruma. Desfazendo a gaveta e desvirando memórias que às vezes gostariam de permanecer viradas. Beatriz pegava as folhas soltas. Todos aqueles pensamentos que uma vez dançaram em sua mente, lhe enriquecendo de agridoces recordações. Momentos, sensações. Não tinha há algum tempo tranças na mente que pudessem ser redigidas, não havia mais fertilidade criativa. Do mesmo modo que não havia mais agitação, raiva. Nada incomodava de verdade, assim como nada alegrava de verdade. Fazia cinco meses que ela tinha se tornado um nada, algo entre uma ou outra coisa, mas nunca definido com certeza o polo. 

Com as mãos e rosto desinteressados, Beatriz pegou com cuidado, uma folha com texto escrito na diagonal. Um incômodo registrado. Lembrou-se de como na época aquilo a deixou pensativa, quando numa terça-feira à noite, acompanharam, ela e o parceiro, um casal de amigos em um lançamento de livro. Saiu do trabalho mais tarde, o salto machucando os dedos, foi até o metrô e pegou o sentido contrário de sua casa. Desceu próximo da última estação, tomou o ônibus e foi até a livraria. O autor era famoso e a livraria era pequena. O coquetel insosso, sem vinho nem champagne, ou uma cachaça que fosse. Uns quitutes minúsculos esquisitos, alcachofras, queijo e geleia. Como empilhavam tantas coisas ruins em um canapé? Beatriz se lembrou dos cumprimentos, dos olhinhos brilhantes do amado ao seu lado e do amigo, e mesmo tomada pelo cansaço, seus olhos inquietos fitaram a parceira do outro: feliz pela felicidade do companheiro. Era claro. Aquelas duas não estariam ali numa terça se não fossem pelos companheiros. 

Lembrou-se agora com graça da situação, e se perguntou, porque na época, aquilo tanto lhe incomodou? E logo, interessando-se pela sequência que havia esquecido, sentou-se no chão, ao lado das bolas amassadas de papel e começou a ler o escrito. 

Foi na falta de brilho da semelhante, que Beatriz teve um lampejo. Quantas vezes havia acompanhado o parceiro em passeios nos quais não estava interessada? Em quantos sorriu? Em quantos foi agradável? Em quantos estava com o coração aberto para viver a experiência, mesmo que idealmente, não tivesse nenhum apreço por ela? De quantas amigas ouviu a mesma história? Quantas vezes viu uma semelhante na mesma situação? Quantas mulheres acompanhavam fielmente os parceiros? Como uma mãe acompanha um filho ou um cachorro acompanha um dono? 

Igualmente, quantas vezes esteve sozinha em eventos nos quais queria estar acompanhada? De onde vinha a repulsa inata dele pelas coisas que lhe interessavam? Repulsa tamanha que o impedia de fingir simpatia e de estar lá? De onde vinha aquilo? De onde vinha essa aparente incapacidade de acompanhá-la, mesmo que fosse como um pai acompanha uma filha ou como um cachorro acompanha a dona? 

Beatriz concluiu o trecho na dúvida. Não tinha pai nem cachorro. Não sabia a resposta. Só sabia ser filha e, pelo que escreveu, cachorro. Talvez papéis que aprendeu pela TV. 

Cinco meses num silêncio, aquilo provavelmente se repetiu muitas vezes desde então, mas curioso que não mais mereceu uma nota de rodapé que fosse. Cinco meses nos quais fugiu tanto de si mesma que acabou ali, sem começo nem fim. No meio de uma frase. Bem na linha que divide todas as coisas. No ponto zero de onde se inicia tudo, mas onde não se deixa nada. 

Mas não chegou ali sem perceber. Foi por volta do terceiro mês, quando a médica lhe disse que estava acometida por sintomas moderados da tão contemporânea malária da tristeza, que ela entendeu porque seu corpo parecia mais oco. Porque a noite no bar ou no cinema não sentia falta de sanidade nem de lucidez, sentia falta de alma. 

Mas como se acha a alma? Ela retorna em algum momento? Ou seria preciso construir outra? Procurou o padre, perguntou a ele, já exaurida da malária, porque havia fugido da alma, mas mesmo que ainda formulasse um pensamento ou outro, que atrelasse uma lembrança a outra, não era capaz de dizer diante da cruz porque havia fugido. Não sabia como confessar, como ter os pecados perdoados para reaver consigo o brio perdido. E o padre, sempre sereno, lhe perguntava a mesma coisa: “se Deus está até na fumaça que se forma na boca dos fumantes, porque você foge das coisas deste mundo? Sua mente que tanto fala, ora, Deus está nela também.” 

Talvez, sem saber, já estava percorrendo aquele caminho silencioso, abandonando um pedacinho de si em cada esquina onde se desgastavam, deixando de lado cada coisinha que poderia provocar desgaste. Talvez já tivesse notado se fosse mais atenta, como seus escritos sempre terminaram em dúvida, que talvez era daquilo que era feita a alma, e que por isso, agora sem voltas, andando nas linhas mais retas já traçadas se via sem caminho para seguir. Como se a vida estivesse engasgada em uma frase. 


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